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Ansiedade e regulação emocional · 3 min de leitura

Por que é tão difícil lidar com a incerteza?

Esperar um resultado, uma resposta, uma decisão. Para algumas pessoas, o 'não saber' é quase insuportável — e a preocupação vira uma tentativa de controlar o que ainda não aconteceu.

Por Camila Andrade, psicóloga clínica · CRP 06/190345

Um exame cujo resultado sai na semana que vem. Uma mensagem visualizada e não respondida. Uma reunião marcada sem pauta. Situações assim são desconfortáveis para quase todo mundo. Mas, para algumas pessoas, o período de "não saber" se torna tão difícil que a mente passa horas tentando resolvê-lo antecipadamente.

Preocupar-se como tentativa de resolver

Pesquisadores que estudam a preocupação descrevem-na como uma cadeia de pensamentos voltada para eventos futuros, com conteúdo predominantemente negativo e difícil de interromper. Ela costuma ter uma intenção compreensível: preparar-se, evitar ser pego de surpresa, encontrar uma solução.

O problema é que muitos dos temas da preocupação não têm solução disponível no momento. Não é possível saber hoje o resultado do exame. E, quando a mente continua tentando, a sensação de ameaça permanece ativa.

Intolerância à incerteza

Na década de 1990, um grupo de pesquisadores canadenses propôs que um fator importante na preocupação excessiva é a intolerância à incerteza: a tendência de reagir de forma negativa a situações incertas, como se a falta de informação fosse, por si só, perigosa. Desde então, esse conceito passou a ser investigado também em outros quadros, como transtornos de ansiedade e o TOC.

Algumas formas comuns como ela aparece no dia a dia:

  • buscar informações repetidamente, em sites, com pessoas próximas ou relendo mensagens;
  • pedir confirmações ("você tem certeza de que está tudo bem?");
  • adiar decisões até ter garantias que nunca chegam;
  • evitar situações novas ou imprevisíveis;
  • sentir alívio passageiro após checar algo, seguido da volta da dúvida.
Muitas estratégias para eliminar a incerteza trazem alívio rápido, mas podem ensinar ao cérebro que o "não saber" é mesmo intolerável.

Por que o alívio não resolve

Checar, perguntar e buscar garantias reduz o desconforto por alguns instantes. Esse alívio torna o comportamento mais provável da próxima vez. Ao longo do tempo, a pessoa pode precisar de cada vez mais certeza para se sentir minimamente tranquila — e a vida passa a se organizar em torno de evitar a dúvida.

Isso não é falta de força de vontade. É um ciclo de aprendizagem compreensível, que costuma se manter justamente porque funciona no curto prazo.

O que pode ajudar

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, o trabalho com a preocupação e a incerteza costuma envolver compreender quando e como esse ciclo aparece na vida de cada pessoa, diferenciar problemas que podem ser resolvidos agora daqueles que não podem, e praticar gradualmente formas de conviver com algum grau de incerteza, sem se apoiar nas estratégias que mantêm o ciclo.

Isso não significa "pensar positivo" nem deixar de se preocupar com o que é importante. Significa recuperar flexibilidade: poder conviver com o que ainda não se sabe sem que isso ocupe todo o espaço.

O que a ciência sabe — e o que ainda não sabe

  • Bem estabelecido: a TCC tem eficácia demonstrada para transtornos de ansiedade, incluindo o transtorno de ansiedade generalizada, em diversas meta-análises.
  • Bem estabelecido: a intolerância à incerteza está associada à preocupação e aparece em diferentes quadros clínicos.
  • Em discussão: ainda se investiga em que medida ela é causa, consequência ou ambas, e quais intervenções a modificam de forma mais eficiente.

Este texto é informativo e não substitui uma avaliação. Se a preocupação vem ocupando muito espaço na sua rotina, conhecer o atendimento pode ser um próximo passo.

Referências

  1. Borkovec, T. D., Robinson, E., Pruzinsky, T., & DePree, J. A. (1983). Preliminary exploration of worry: Some characteristics and processes. Behaviour Research and Therapy, 21(1), 9–16. doi.org/10.1016/0005-7967(83)90121-3
  2. Dugas, M. J., Gagnon, F., Ladouceur, R., & Freeston, M. H. (1998). Generalized anxiety disorder: A preliminary test of a conceptual model. Behaviour Research and Therapy, 36(2), 215–226. doi.org/10.1016/S0005-7967(97)00070-3
  3. Carleton, R. N. (2016). Into the unknown: A review and synthesis of contemporary models involving uncertainty. Journal of Anxiety Disorders, 39, 30–43. doi.org/10.1016/j.janxdis.2016.02.007
  4. Hofmann, S. G., Asnaani, A., Vonk, I. J. J., Sawyer, A. T., & Fang, A. (2012). The efficacy of cognitive behavioral therapy: A review of meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, 36(5), 427–440. doi.org/10.1007/s10608-012-9476-1
Camila Andrade sentada, sorrindo, vestindo roupa preta em fundo claro

Camila Andrade

Psicóloga clínica · Psicologia Baseada em Evidências e TCC · atendimento online para adultos.

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