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Autocobrança e comportamento · 3 min de leitura

Perfeccionismo e autocobrança: quando fazer tudo bem começa a custar caro

Entregar, ser elogiada e, ainda assim, sentir que não foi suficiente. Quando o valor pessoal passa a depender do desempenho, a exigência deixa de impulsionar e começa a esgotar.

Por Camila Andrade, psicóloga clínica · CRP 06/190345

Há pessoas que entregam bem, cumprem prazos e são reconhecidas pelo que fazem. E, ainda assim, terminam o dia revisando o que poderia ter sido melhor. O descanso vem acompanhado de culpa. Um pequeno erro ocupa mais espaço do que dez acertos.

Padrões altos não são o problema

Ter padrões elevados e se dedicar ao que faz pode ser algo valioso. A pesquisa em psicologia faz uma distinção importante: o que se torna problemático não é a exigência em si, mas a forma como ela se relaciona com a autoestima.

Pesquisadoras do Reino Unido descreveram o chamado perfeccionismo clínico: a dependência excessiva da autoavaliação em relação à busca de padrões exigentes, autoimpostos, mantida apesar de consequências negativas. Em outras palavras, quando "eu valho o que eu entrego".

Como o ciclo se mantém

Alguns elementos ajudam a entender por que esse padrão é tão persistente:

  • Metas que se deslocam. Quando um padrão é atingido, ele costuma ser reavaliado como insuficiente, e uma nova meta é estabelecida.
  • Atenção seletiva aos erros. Falhas pequenas ganham destaque; conquistas são minimizadas.
  • Verificação e evitação. Revisar muitas vezes, adiar começar (para não fazer "mal") ou evitar situações em que o desempenho possa ser avaliado.
  • Autocrítica severa. O diálogo interno após um erro costuma ser mais duro do que o que a pessoa usaria com qualquer outra pessoa.
O perfeccionismo promete segurança por meio do controle do desempenho. O preço costuma ser a sensação de nunca estar em paz com o que se faz.

Onde o custo aparece

Revisões da literatura descrevem o perfeccionismo como um processo transdiagnóstico: ele aparece associado a diferentes dificuldades, como ansiedade, depressão, transtornos alimentares e TOC. No cotidiano, o custo pode surgir como cansaço constante, procrastinação, dificuldade de delegar, dificuldade de dizer não e pouca satisfação com as próprias conquistas.

Há também indícios de que o perfeccionismo tem aumentado ao longo das gerações: uma meta-análise com estudantes universitários de países de língua inglesa encontrou crescimento nos escores de perfeccionismo entre 1989 e 2016. Esse dado se refere a uma população específica e não deve ser generalizado de forma simplista.

O que pode ajudar

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, o trabalho com o perfeccionismo costuma envolver compreender como esse padrão funciona na vida da pessoa, ampliar as fontes de autovalor para além do desempenho, testar na prática o que acontece quando os padrões são flexibilizados e desenvolver uma relação menos punitiva com os próprios erros.

O objetivo não é deixar de se importar com o que faz. É poder se dedicar sem que cada tarefa seja uma prova do próprio valor.

O que a ciência sabe — e o que ainda não sabe

  • Evidência promissora: meta-análises de ensaios clínicos indicam que intervenções de TCC focadas no perfeccionismo reduzem o perfeccionismo e sintomas associados de ansiedade e depressão.
  • Limitações: muitos estudos têm amostras pequenas ou são feitos com estudantes, e ainda há poucos dados de acompanhamento de longo prazo.

Se você se reconheceu neste texto, talvez seja útil ler também sobre burnout e estresse crônico ou conhecer como funciona o atendimento.

Referências

  1. Shafran, R., Cooper, Z., & Fairburn, C. G. (2002). Clinical perfectionism: A cognitive–behavioural analysis. Behaviour Research and Therapy, 40(7), 773–791. doi.org/10.1016/S0005-7967(01)00059-6
  2. Egan, S. J., Wade, T. D., & Shafran, R. (2011). Perfectionism as a transdiagnostic process: A clinical review. Clinical Psychology Review, 31(2), 203–212. doi.org/10.1016/j.cpr.2010.04.009
  3. Curran, T., & Hill, A. P. (2019). Perfectionism is increasing over time: A meta-analysis of birth cohort differences from 1989 to 2016. Psychological Bulletin, 145(4), 410–429. doi.org/10.1037/bul0000138
  4. Lloyd, S., Schmidt, U., Khondoker, M., & Tchanturia, K. (2015). Can psychological interventions reduce perfectionism? A systematic review and meta-analysis. Behavioural and Cognitive Psychotherapy, 43(6), 705–731. doi.org/10.1017/S1352465814000162
  5. Galloway, R., Watson, H., Greene, D., Shafran, R., & Egan, S. J. (2022). The efficacy of randomised controlled trials of cognitive behaviour therapy for perfectionism: A systematic review and meta-analysis. Cognitive Behaviour Therapy, 51(2), 170–184. doi.org/10.1080/16506073.2021.1952302
Camila Andrade sentada, sorrindo, vestindo roupa preta em fundo claro

Camila Andrade

Psicóloga clínica · Psicologia Baseada em Evidências e TCC · atendimento online para adultos.

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